terça-feira, 2 de novembro de 2010

Investigação sobre pedofilia na Igreja

Entrevista com Lorenzo Bertocchi, historiador do Cristianismo

Quantos casos de pedofilia foram registrados na Igreja Católica? E quantos são verificados na sociedade? Para responder a estas e outras perguntas sobre um tema tão delicado e espinhoso, Francesco Agnoli, Massimo Introvigne, Giuliano Guzzo, Luca Volonté e Lorenzo Bertocchi acabam de publicar um ensaio sobre o assunto.

Para aprofundar no tema, ZENIT entrevistou um dos autores do ensaio italiano "Indagine sulla pedofilia nella Chiesa" (edições Fede & Cultura). É Lorenzo Bertocchi, estudioso da história do Cristianismo.

-Quantos são os casos de pedofilia na Igreja?

Bertocchi: Ainda que houvesse um único caso, é óbvio que já seria demasiado e dentro da Igreja quem manifestou idéias muito claras neste respeito é justamente Bento XVI. Dito isto, creio que é útil entender as dimensões do fenômeno e, na primeira parte do livro, Massimo Introvigne nos ajuda a moldar o problema. Nos Estados Unidos, por exemplo, segundo investigações acadêmicas autorizadas, de 1950 a 2002, os sacerdotes acusados de efetiva pedofilia foram 958 de mais de 109.000 sacerdotes, mas as condenações diminuem drasticamente até um número inferior a 100.

O padre Lombardi [porta-voz do Vaticano], em uma declaração de 10 de março passado, mencionava o caso da Áustria onde, no mesmo período, as acusações verificadas e atribuídas à Igreja somam 17, enquanto em outras ambientes elas passam de 510. Estes números podem dizer muito ou nada, todavia mostram sim uma tendência que permite esvaziar a hipótese que a respeito da Igreja quereria fazer-se "de toda la hierba un haz" [expressão italiana que significa "generalizar"].

-E na sociedade?

Bertocchi: Lendo os dados parece que a praga da pedofilia está verdadeiramente estendida e é impressionante. Em um relatório da Organização Mundial da Saúde - Estimativas Globais de Conseqüências de Saúde devido à Violência Contra Crianças (Genebra, OMS 2006) - é indicado, por exemplo, que em 2002, no mundo, estima-se que aproximadamente 150 milhões de meninas e 73 milhões de meninos forçados a diversas formas de abuso no âmbito sexual.

Um relatório da ONU, apresentado em 21 de julho de 2009 na Assembléia Geral, centraliza a atenção, por outro lado, na situação da internet: a escala mundial, o número de páginas de natureza pedo-pornográfico aumenta em ritmo vertiginoso; por exemplo, se em 2001 eram 261.653, em 2004 somavam-se 480.000, tendência que também se confirma consultando os relatórios anuais da Associação Meter, do padre Di Noto.

-Que cultura promove a pedofilia?

Bertocchi: No centro da problemática está a "cultura do sexo" que, especialmente a partir da chamada 68, promoveu uma verdadeira revolução destinada a "abolir os tabus". A difusão da pornografia, que de alguma maneira representa a bandeira desta revolução, está à vista de todos. A mentalidade dominante hoje é aquela que justifica a prática de uniões sexuais de todo o tipo, fruto de um pensamento que encontra suas raízes em De Sade, Freud, Fromm, Reich, Marcuse etc, aqueles que poderíamos definir como profetas da exaltação do orgasmo.

-Como, quando e por que a cultura favorável à pedofilia penetrou nos seminários e na Igreja?

Bertocchi: A resposta pode vir da carta que Bento XVI escreveu aos católicos da Irlanda onde, além de confrontar o problema de casos de pedofilia no clero irlandês, o Santo Padre procura também as raízes do fenômeno. Em sua argumentação, faz referência para que "o programa de renovação proposto pelo Concílio Vaticano II foi Às vezes mal entendido". Seguramente há uma alusão àquele período dos anos 60/70 do século passado no qual a chamada "abertura do mundo" conduziu a Igreja a uma debilidade da fé e a uma secularização progressiva.

O ataque social, feito em princípio pela autoridade, com o famoso slogan "proibido proibir", se insinuou na Igreja e, deste modo, nos seminários uma certa interpretação terminou por confundir a disciplina com o diálogo; o resultado foi uma manga mais larga na seleção de candidatos para o sacerdócio.

-Por que a pedofilia organizada e praticada com o turismo sexual não faz barulho e não é possível detê-la?

Bertocchi: A investigação da Universidade de Parma realiada por ECPAT estanelece o perfil do "turista" que não é certamente um mostro: em 90% dos casos, tem entre 20 e 40 anos, cultura de nível meio alto, bom padrão de renda, muito freqüentemente casado. Por outro lado, as vítimas têm idade entre 11 e 15 anos, no caso das meninas, e entre 13 e 18 para os rapazes.

Este tipo de "turismo" é considerado crime em muitos países, mas apesar disto é uma indústria florescente e justo pelo fato de ser "uma indústria" torna-s difícil deter o fenômeno. Mas também há uma razão mais radical investigada naquela "cultura do sexo" da qual falava a pouco; há expressões políticas que são estandartes de temas nascidos naquela "cultura" e que se movem como um verdadeiro lobbby.

-Qual é o limite entre realidade e falso moralismo?

Bertocchi: Por uma espécie de perversão da verdade, hoje nos deparamos com uma confusão ética de taps proporções que a realidade se perde no subjetivismo. Vemos, deste modo, que a condenação do comportamento imoral dos religiosos vem da mesma atmosfera cultural que está disposto a aceitar a toda arbitrariedade do indivíduo. As razões são de tipo ideológico, mas também de tipo econômico, como demonstram esses escritórios de advocacia americanos que têm ganho milhares de milhões de dólares, graças ao uso despreocupado da acusação de pedofilia.

-Como avaliar a linha de tolerância zero adotada pelo Papa Bento XVI?

Bertocchi: A determinação do Santo Padre querendo deixar claro me parece exemplar, mostra uma via de transparência que não só é válida para a Igreja, mas deveria ser para todos os setores da sociedade que tiveram ou tenham haver com este triste fenômeno.

Nas meditações da Via Crucis 2005, o então cardeal Ratzinger mostrou claramente a necessidade de se "fazer limpeza" dentro da Igreja, vontade não justiceira, mas desejo de verdadeira justiça para fazer brilhar cada vez mais a Esposa de Cristo "uma, santa, católica e apostólica".

-De que modo a Igreja Católica poderá será capaz de superar a consternação e a desconfiança disseminada entre as pessoas?

Bertocchi: Eu concordo com as conclusões que Agnoli mostra no ensaio: oração, recuperação do senso de sobrenatural, serviço efetivo do governo da Igreja e, eu acrescento, uma profunda recuperação do senso de pecado. "O verdadeiro inimigo para temer e combater é o pecado, o mal espiritual que, às vezes, lamentavelmente, contamina também aos membros da Igreja", disse Bento XV após a Regina Caeli de 16 de maio.

Infelizmente, em muitas catequeses, está cada vez menos na moda o tópico "pecado", deslocado por muita psicologia e muita sociologia. Reconhecer-se pecadores, porém, é a via para acolher a Misericórdia de Deus. Caridade na Verdade, não há outro modo para dar esperança aos homens de nosso tempo.

Como se relacionar com Deus?

Como já foi lembrado nas formações anteriores, Deus está próximo de nós e, mais do que isso, está ansioso por participar da nossa vida. É importante destacar que o Senhor é Emmanuel, Deus conosco. Ele é quem sempre dá o primeiro passo em direção ao homem. No paraíso, após a desobediência de Adão, é Deus que lhe vem ao encontro em primeiro lugar e o chama: “Adão, onde estás?” (Gn 3, 9). É sempre o Senhor quem vai em busca do homem. Na encarnação do seu Filho, isso se torna mais manifesto: “Nisto consiste o amor: não em termos nós amado a Deus, mas em ter-nos Ele nos amado e enviado seu Filho único para expiar os nossos pecados” (1Jo 4, 10). Esse chamado de Deus em busca do homem - “’Onde estás?’ – palpita no interior de todos nós o desejo, a sede de Deus. O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, e [...] Deus não cessa de atrair o homem para si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (CIC 27). E Santo Agostinho diz que o “nosso coração vive inquieto, enquanto não repousar em vós” (Confissões nº 01).

O relacionamento do homem com Deus começa com o início da própria existência. Como lembramos no Salmo 138, desde antes de nascer, Deus já olha por nós. O relacionamento se torna mais íntimo com o sacramento do batismo. É lá que a criança-criatura é acolhida na família de Deus e recebe a adoção, o caráter de filho de Deus. Isso se repete em todos os sacramentos da Igreja: na medida em que participamos deles, vivenciamos a pertença à Sua família. A vida da Igreja nos impulsiona ao relacionamento com Deus. Através dos sacramentos – principalmente da Eucaristia e da Penitência – o próprio Deus se revela ao crente. “É pelos sacramentos da Igreja que Cristo comunica aos membros do seu corpo o Seu Espírito Santo e Santificador” (CIC 739).

Nos sacramentos da Igreja, Deus se revela ao homem. “Os sacramentos da nova lei foram instituídos por Cristo e são sete, a saber: o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o Matrimônio. Os sete sacramentos atingem todas as etapas e todos os momentos importantes da vida do cristão: dão à fé do cristão origem e crescimento, cura e missão” (CIC 1210). “O que a fé confessa, os sacramentos comunicam: pelos ‘sacramentos que os fizeram renascer’, os cristãos se tornaram ‘filhos de Deus’ (cf. Jo 1, 12; 1Jo 3, 1), ‘participantes da natureza divina’ (2Pd 1, 4)” (CIC 1692).

Relacionar-se com Deus não é muito diferente do relacionar-se com um amigo. Nessa situação, o diálogo é fundamental. É através dele que os amigos se conhecem e se dão a conhecer. É conversando que eles aprendem o que agrada a um e desagrada ao outro, o que é bom pra um e ruim para o outro. No relacionamento com Deus acontece o mesmo: o diálogo é a oração. É primordialmente através da oração que nos relacionamos com Deus: “Ainda que o homem esqueça seu Criador, ou se esconda longe de Sua Face, ainda que corra atrás dos seus ídolos ou acuse a divindade de tê-lo abandonado, o Deus vivo e verdadeiro chama incessantemente cada pessoa ao encontro misterioso da oração. Essa atitude de amor fiel vem sempre em primeiro lugar na oração; a atitude do homem é sempre resposta ao esse amor fiel. À medida que Deus se revela e revela o homem a si mesmo, a oração aparece como um recíproco apelo, um drama de Aliança” (CIC 2567).

Ainda em outro trecho, o Catecismo nos lembra a passagem que representa o encontro de todo o homem com o Filho de Deus: a samaritana no poço de Jacó (cf. Jo 4). “’Se conhecesses o dom de Deus!’ (Jo 4, 10). A maravilha da oração se revela justamente aí, à beira dos poços aonde vamos procurar nossa água; é aí que Cristo vem ao encontro de todo ser humano, é o primeiro a nos procurar e é Ele quem pede de beber. Jesus tem sede, seu pedido vem das profundezas do Deus que nos deseja. A oração, quer saibamos ou não, é o encontro entre a sede de Deus e a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede Dele” (CIC 2560).

Como na amizade, o diálogo tem de ser verdadeiro e, na oração, nossas palavras devem ser autênticas. Não podemos cultivar uma relação frutuosa com Deus apresentando-nos apenas com orações decoradas e escondendo o que realmente sentimos. Muitas pessoas não descobrem o valor de um relacionamento sincero com Deus porque não conseguem manifestar a Ele seus reais sentimentos. Vestem uma máscara diante Dele e, não importa o que estejam passando, repetem sempre as mesmas palavras de louvor e adoração. Se nosso espírito está abatido, é assim que devemos nos apresentar a Deus. Se estamos com raiva ou tristes, não podemos fingir que está tudo bem. É a Deus que devemos apresentar nossa raiva, nossa tristeza e todos os nossos sentimentos. A primeira coisa que devemos fazer para conquistar um relacionamento de intimidade com o Senhor é jogar fora as máscaras e apresentarmo-nos diante Dele exatamente como somos.

Existem diversos tipos de oração. Em cada um, nos apresentamos ao Senhor de uma maneira diferente e contemplamos sua Face de modo particular. Na oração de louvor, por exemplo, nos apresentamos admirados e agradecidos por suas obras. O louvor não existe apenas para as coisas boas da nossa vida. Se cremos que Deus é amor, compreendemos que até as coisas ruins que nos acontecem são permitidas por amor. Assim, louvamos também pelas coisas que não nos parecem boas. O louvor é a oração do reconhecimento de Deus, ou seja, com o louvor reconhecemos sua majestade, sua glória, seu poder. Da mesma forma, na adoração, na súplica, na ação de graças, no pedido de perdão e nos diversos tipos de diálogo com Deus, experimentamos sua Graça e sua misericordiosa presença. Vale lembrar as palavras de Santa Teresinha do Menino Jesus: “Para mim a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou no meio da alegria”. Um ‘impulso do coração’ é algo espontâneo, que brota do mais íntimo do homem, que não pode ser contido por fórmulas pré-estabelecidas e padronizadas.

É importante destacar que essa oração espontânea é fundamental para construirmos um relacionamento íntimo com o Senhor, porém não substitui as orações ensinadas pela Igreja e que devem ser cultivadas com zelo por todo o cristão. Mesmo na prática de orações recitadas, é preciso que toda nossa alma acompanhe as palavras que recitamos: “Para que essa oração seja algo próprio de cada um dos que nela participam e se torne fonte de piedade e da multiforme graça divina e alimento da oração individual e da ação apostólica, é preciso que nela a mente concorde com a voz, celebrando-a com dignidade, atenção e devoção. Todos cooperem diligentemente com a graça divina, para não a receberem em vão. Buscando a Cristo e penetrando cada vez mais intimamente em seu mistério mediante a oração, louvem a Deus e façam súplicas com a mesma intenção com que o divino Redentor orava” (Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas nº 19).

“De onde vem a oração humana? Qualquer que seja a linguagem da oração (gestos e palavras), é o homem todo que reza. Mas para designar o lugar onde brota a oração, as Escrituras falam às vezes da alma ou do espírito, geralmente do coração (mais de mil vezes). É o coração que reza. Se ele está longe de Deus, a expressão da oração é vã. [...] A oração cristã é uma relação de Aliança entre Deus e o homem em Cristo. É a ação de Deus e do homem; brota do espírito e de nós, dirigida ao Pai, em união com a vontade humana do Filho de Deus feito Homem” (CIC 2565-2563).

O Rosário, por exemplo, nos ensina a contemplar os mistérios da encarnação assim como Maria os contemplou. O Ofício das Horas nos leva a consagrar nossa jornada e elevar nossa mente e coração a Deus nos diferentes momentos do dia. As orações e novenas dos Santos, além de conquistar os frutos de sua intercessão pelo mistério da Comunhão dos Santos, desabrocham em nós o coração suplicante de filhos que clamam. Todas essas práticas devem ser incentivadas em nossos grupos, porém devemos sempre motivar nossos jovens a buscarem desenvolver também a oração espontânea.

É importante também que guardemos esta verdade: a oração é graça, é um dom de Deus para o homem que clama!

Um fato concreto que eleva o relacionamento do homem com Deus ao grau da intimidade é a graça vivenciada pela Igreja com maior intensidade nesses tempos: a efusão do Espírito Santo. O Batismo no Espírito derruba toda barreira no coração humano para o relacionamento com Deus. É claro que sempre devemos nos esforçar para fazer a nossa parte. A Efusão do Espírito Santo é, portanto, o desabrochar da ação da Graça que pode ter ficado sufocada desde o nosso batismo. O Magistério nos ensina sobre a ação do Espírito Santo na Igreja: “O Espírito prepara os homens, antecipa-se a eles pela sua graça, para atraí-los a Cristo. Manifesta-lhes o Senhor ressuscitado, lembra-lhes a sua palavra, abrindo-lhes o Espírito à compreensão da sua Morte e Ressurreição. Torna-lhes presente o mistério de Cristo, eminentemente na Eucaristia a fim de reconciliá-los, de colocá-los em comunhão com Deus, a fim de fazê-los produzir ‘muito fruto’ (cf. Jo 15, 5.8.16)” (CEC 737).

Os nossos Grupos de Oração são terreno fértil e privilegiado para o desabrochar de um relacionamento fecundo entre o homem e Deus. Mas não só neles devemos buscar esse relacionamento. A oração pessoal é fundamental para crescermos em intimidade com o Senhor. “Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á” (Mt 6, 6).

O relacionamento de Jesus com seus discípulos não se dava apenas durante suas aparições públicas, quando curava e pregava a Boa Nova. O momento privilegiado do Mestre com aqueles que chamou a segui-lo dava-se à noite, no monte ou na intimidade com os discípulos, sempre longe da multidão (cf. Mc 4, 10; Lc 9, 18; Lc 9, 28-36; Lc 18, 31; Mt 13, 36). É pela intensidade e pela grande quantidade desses momentos que Jesus, na sua despedida, pôde dizer: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” (Jo 15, 15). O relacionamento com Deus não pode ser apenas o relacionamento de um servo com o seu Senhor. Devemos querer mais, devemos buscar uma amizade profunda com o Senhor, através dos momentos de intimidade. Isso não virá apenas pelo nosso esforço, mas pela Graça. Assim, devemos colocar-nos à disposição do Senhor e fazer a nossa parte, pedindo a graça da intimidade com Deus ao Espírito Santo. Portanto, importa estar sempre aos pés do Senhor. Essa é a pedagogia do Mestre. Ele ensina na ‘escuridão’, falando ‘ao ouvido’: “O que eu vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vós é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados” (Mt 10, 27).

Eis que faço novas todas as coisas

“Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho; eis que tudo se fez novo!” (2Cor 5, 17)


O discípulo de Jesus precisa ter uma visão muito clara do objetivo de sua existência: o desafio de mudar, de se conformar com a imagem de Jesus, o objetivo de ser como Jesus nos seus relacionamentos, no caráter, no serviço, na missão.

Começamos a nossa caminhada com Jesus cheios de alegria e entusiasmo, mas vamos nos decepcionando conosco mesmos, vamos recaindo em erros e fraquezas dos quais já tínhamos nos libertado, vamos perdendo esse ideal de mudança e fica em nós um grande cansaço, um grande desânimo. No entanto, tenho que lhes dizer: sempre que alguém partilha o seu desânimo comigo, o Senhor me faz lembrar desse cântico: “Eis que faço novas todas as coisas, que faço novas todas as coisas. É vida que brota da vida...” Sinto que é como se o próprio Senhor cantasse ao meu coração, para que eu possa dizer isso às pessoas que se confessam desanimadas.

Sim, a vida é Jesus, Ele é a nossa vida e pode nos dar vida nova, pode de uma maneira nova e atual nos ensinar a viver a vida no Espírito, pode restaurar-nos, curar-nos, pode e quer tocar profundamente, radicalmente nas nossas vidas hoje e nos tornar motivados, alegres, cheios de ânimo, cheios do Espírito Santo.

Você quer receber esta graça hoje mesmo? Então peça, feche os olhos se quiser e, dentro do seu coração, fale com Jesus, diga a Ele que você quer renovar a sua pertença a Ele, diga que você O convida mais uma vez a ser o Senhor de sua vida, entregue de novo a sua vida a Ele,diga a Ele que você O ama, vá louvando o Senhor, agradeça a Ele tudo o que Ele já fez por você, tudo o que já mudou na sua vida, peça a Ele para você ser renovado no amor, peça um novo Pentecostes com todos os seus milagres.

Faça isso e você verá um ânimo novo invadir seu coração. É vida que brota da vida. A vida é Jesus, vale a pena segui-Lo e mudar por causa dele.

Maria Beatriz Spier Vargas
Secretária-geral do Conselho Nacional da RCCBRASIL

Quem é Deus?

“Deus é amor” (1Jo 4, 8)

Iniciar um relacionamento significa começar um processo de conhecimento do outro. Entre o homem e Deus isso também acontece. Relacionar-se com Ele significa buscar conhecê-lo cada vez mais. Nessa busca, muitos tentam definir a Deus. O Catecismo da Igreja Católica faz isso, logo no primeiro parágrafo: “Deus, infinitamente Perfeito, Bem-aventurado em sim mesmo, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada. Eis por que desde sempre e em todo o lugar, está perto do homem. Chama-o e ajuda-o a procurá-lo, a conhecê-lo e a amá-lo com todas suas forças”.

No parágrafo 36: “A Santa Igreja, nossa mãe, sustenta e ensina que Deus, princípio e o fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana a partir das coisas criadas. Sem esta capacidade, o homem não poderia acolher a revelação de Deus. O homem tem esta capacidade por ser criado à imagem de Deus”.

E ainda no parágrafo 27: “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem para si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar”.

Na sequência deste texto, segue parte da Constituição Pastoral Gaudium et Spes (GS 19, 1): “O aspecto mais sublime da dignidade humana está nesta vocação do homem à comunhão com Deus. Este convite que Deus dirige ao homem, de dialogar com ele, começa com a existência humana. Pois se o homem existe, é porque Deus o criou por amor e, por amor, não cessa de dar-lhe o ser, e o homem só vive plenamente, segundo a verdade, se reconhecer livremente este amor e se entregar ao seu criador”.

Estes três parágrafos não são os únicos. Porém, mostram com clareza o que a Igreja Católica pensa e prega a respeito de Deus. Nestes textos encontra-se a imagem de Deus Criador, início de tudo, que por um infinito amor criou o homem. Além disso, pode-se perceber a presença de Deus na vida do homem e o desejo de que este homem, por sua livre iniciativa, procure Deus, e o ame com todas as suas forças. Sabendo que esta tarefa não é simples. Ele está sempre presente e disposto a ajudar.

A palavra “homem”, repetida inúmeras vezes nas passagens anteriores, pode tornar o texto impessoal e distante. Para tornar estes textos mais presentes na nossa vida, pode-se trocar a palavra “homem” pelo nosso próprio nome. Com isso, fica mais fácil perceber o chamado e o cuidado particular de Deus com cada um de nós.

Na Bíblia, podem ser encontradas mais características de Deus, como, por exemplo, na 1ª Carta de São João, onde ele revela que “Deus é amor”. Essa é a essência de Deus. O discípulo que ‘Jesus amava’ nos revela a mais profunda verdade sobre Deus: Ele é amor. Isso é determinante para conhecê-lo. Precisamos estar profundamente convencidos dessa essência, pois isso determina a maneira como nos relacionamos com Ele. Se Deus é amor, Ele ama. Não pode deixar de amar. E se não pode deixar de amar, tudo o que faz, o faz por amor. Todo medo de Deus sucumbe quando nos convencemos de que Deus é amor. Se Deus é amor, não há nele maldade, ressentimento, vingança ou autoritarismo. Todas essas características viciadas que muitas vezes trazemos inconscientemente de Deus caem por terra quando tomamos consciência de que Deus é amor. Se isso é verdade, ele não é indiferente à dor humana. Se Deus é amor, então ele não pode ser um Deus distante, ausente ou carrasco. Ele é Amor!

Porém, a definição mais pedagógica de Deus é apresentada pelo próprio Jesus, quando chama Deus de Pai (Mt 6, 5-13). Dentro da cultura judaica, Deus era visto de várias maneiras, mas nunca como um Pai. Quando Jesus o chama não apenas de Pai, mas de ‘Abba’ – Papai – ele revela a nós qual é o amor paternal que Deus tem para conosco e qual é o amor filial que devemos ter em relação a Deus. A partir dessa fala de Jesus, já não podemos mais conhecer um Deus a quem devemos apenas servir e adorar. Um Deus que está distante em seu trono aguardando nosso sacrifício. Não! Após a fala de Jesus chamando Deus de Papai, entendemos que somos seus filhinhos queridos e devemos nos relacionar com Ele assim, de maneira íntima, como dependentes, como criancinhas que precisam de seu colo, de sua companhia, de sua Graça.

No conceito de ‘pai’ estão embutidas as ideias de: origem, autoridade, verdade, sabedoria, providência, fidelidade, misericórdia, amor. Muitas vezes, por experiências ruins em relação a nossos pais naturais, temos dificuldades em aceitar a figura paterna de Deus. É preciso orar pedindo a cura disso. Orar para aceitar a Deus como Pai e para perdoar nossos pais. Eles ao limitados como nós. Provavelmente também não receberam o amor paterno equilibrado quando pequenos e por isso não souberam manifestar esse amor a nós. Como diz o cantor católico Martin Valverde: “Deus não é um pai, Ele é O Pai!”. Todas as falhas e limitações de nossos pais que possam ter nos machucado não estão presentes em Deus. O Senhor detém a plenitude da paternidade. Ele é o Pai Perfeito.

Esse amor de Pai zeloso é manifestado em nossas vidas a todo o momento. Mesmo que não o percebamos, cegos pelas dores ou pela incredulidade, esse amor nos envolve carinhosamente. Se há uma coisa que o Pai não pode fazer é deixar de nos amar. “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

Esse amor se manifesta antes mesmo do nosso nascimento. O salmista celebra as maravilhas de Deus: “Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo, vós me tecestes no seio da minha mãe. Sede bendito por me haveres feito de modo tão maravilhoso” (Sl 138). Nossa natureza, nossas características (todas e cada uma delas) são sinais do amor de Deus por nós.

Reconhecemos este Deus Pai e Criador sempre que rezamos o Pai Nosso, o Creio, ou mesmo no simples “em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo”. Ao longo da nossa vida nos habituamos a estas orações e, às vezes, nem nos damos conta do que estamos rezando. Além de reconhecê-lo efetivamente como Pai, é fundamental que cada um se aproxime de deus e queira ardentemente estar junto dele em todos os momentos.

QUIROGA, Aldo Flores e FLORES, Fabiana Pace Albuquerque. Práticas de Vida e Relacionamento – Ministério Jovem RCCBrasil. Módulo Serviço – Apostila I. 2ª edição.

O Fundo da Piscina

Um excelente nadador tinha o costume de correr até a água e de molhar somente o dedão do pé antes de qualquer mergulho. Alguem intrigado com aquele comportamento, lhe perguntou qual a razão daquele hábito.

O nadador sorriu respondeu: Há alguns anos eu era um professor de natação. Eu os ensinava a nadar e a saltar do trampolim. Certa noite, eu não conseguia dormir, e fui até a piscina para nadar um pouco.

Não acendi a luz, pois a lua brilhava através do teto de vidro do clube. Quando eu estava no trampolim, vi minha sombra na parede da frente. Com os braços abertos, minha imagem formava uma magnífica cruz.

Em vez de saltar, fiquei ali parado, contemplando minha imagem. Nesse momento pensei na cruz de Jesus Cristo e em seu significado. Eu não era um cristão, mas quando criança aprendi que Jesus tinha morrido na cruz para nos salvar pelo seu precioso sangue.

Naquele momento as palavras daquele ensinamento me vieram a mente e me fizeram recordar do que eu havia aprendido sobre a morte de Jesus.

Não sei quanto tempo fiquei ali parado com os braços estendidos. Finalmente desci do trampolim e fui até a escada para mergulhar na água. Desci a escada e meus pés tocaram o piso duro e liso do fundo da piscina.

Haviam esvaziado a piscina e eu não tinha percebido. Tremi todo, e senti um calafrio na espinha. Se eu tivesse saltado seria meu último salto. Naquela noite a imagem da cruz na parede salvou a minha vida.

Fiquei tão agradecido a Deus, que ajoelhei na beira da piscina, confessei os meus pecados e me entreguei a Ele, consciente de que foi exatamente em uma cruz que Jesus morreu para me salvar.

Naquela noite fui salvo duas vezes e, para nunca mais me esquecer, sempre que vou até piscina molho o dedão do pé antes. Deus tem um plano na vida de cada um de nós e não adianta querermos apressar, ou retardar as coisas, pois, tudo acontecerá no seu devido tempo e esse tempo é o tempo Dele e não o nosso...

Porque DEUS amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. João 3:16 ...

A fé já está no coração

O que levou os apóstolos a pedirem o aumento da fé em seus corações? Impressionante este apelo feito por eles a Jesus, aparentemente, de uma hora para outra. Que preocupação é esta? Entendamos.

Nessa ocasião em que os apóstolos pedem o aumento da fé em suas vidas, anteriormente, estes tinham ouvido e visto muitas coisas que os preocuparam muitíssimo. Os Doze deixaram tudo para seguir Cristo, como é narrado no momento do encontro de cada um deles com o Senhor; todavia, conforme foi se dando a caminhada, Jesus foi formando-os de forma muito direta, sincera e franca. E disse-lhes que o caminho que leva à vida é apertado; se alguém quisesse segui-Lo era preciso deixar tudo, inclusive seus familiares; que era preciso amar os inimigos e perdoar sempre e incondicionalmente; e tantas outras coisas mais. Essas exigências foram fazendo com que muitos discípulos abandonassem o seguimento, a caminhada; Jesus, vendo tantos desistirem, ainda pergunta aos apóstolos: “E vós: não quereis ir com eles?”

Os Doze ficam num embate tremendo e sabem que, para conseguir dar conta do recado, ou seja, perseverarem na caminhada, terão de ter a fé aumentada. Então clamam: “Aumenta a nossa fé!” Mas como entender essa história de aumento da fé? Existe fé aumentada? Temos ou não temos fé? A fé, ou se tem ou se não tem; como diz o ditado: “Ou temos fé de mais ou temos fé de menos”. Como entender isso? O que os apóstolos queriam dizer com esse pedido? Vamos lá.

Em nós existe um “lugar” – este não é físico – chamado: sacrário inviolável; neste “lugar” ninguém pode entrar; somente quem pode entrar lá é Deus e nós; nem o demônio pode lá entrar. O maligno, sabendo que lá não possui acesso, investe de forma muito sorrateira e oportunista para fazer com que nos percamos. No dia do nosso batismo, a semente da fé, da esperança e da caridade foram depositadas dentro desse sacrário inviolável – no coração do ser humano, biblicamente falando. Nunca perderemos essas virtudes, pois são virtudes teologais e os dons de Deus são irrevogáveis. Então, o que o demônio faz? Faz com que o pecado envolva esse sacrário e crie uma petrificação em torno dele, fazendo com que o ser humano perca a sensibilidade da fé, da esperança e da vivência da caridade.

Quando os apóstolos pedem que a fé seja aumentada, o que eles estão pedindo, na verdade? Estão pedindo não que a fé – propriamente dita - seja aumentada, mas que de seus corações saiam essas realidades de pecado que estão tomando conta e que já se enraizaram em seus corações, como um pé de amoreira, conforme diz Jesus.

Daí entendemos quando Deus fala pelo profeta Ezequiel: “Derramarei sobre vós uma água pura e sereis purificados; derramarei o meu espírito sobre vós; tirarei do vosso peito este coração de pedra e colocarei um coração de carne”.

É preciso que venhamos a arrancar toda a realidade de pecado que se enraíza e petrifica o nosso coração, fazendo com que percamos a sensibilidade quanto a tudo aquilo que é de Deus e que nos coloca no Seu seguimento.

A fé alimenta a esperança e faz com que, com alegria, venhamos a ter alegria em servir; então, como está na Palavra, sou eu quem faço o outro sentar, pois quem precisa servir sou eu. Depois de servir, digo com alegria: não fiz mais que minha obrigação, pois se sirvo, sirvo pelo fato de ter a graça de Deus em poder amar; se amo e sirvo, sou amado por Deus não por causa disso, mas sou amado por ser filho. O Todo-poderoso me ama por aquilo que sou e não por aquilo que faço. Meu Deus é um Deus de amor e não um Deus das recompensas.

Padre Pacheco
Comunidade Canção Nova

O TERCEIRO MANDAMENTO

O Terceiro Mandamento nos lembra que o domingo é o dia do Senhor e a ele deve ser dedicado. “Trabalharás durante seis dias e farás todas as tuas obras. O sétimo dia, porém, é o sábado do Senhor, teu Deus. Não farás nenhum trabalho”. (Ex 20,8-10) O dia do sábado no Antigo Testamento lembrava também a libertação de Israel do Egito. No Novo Testamento recorda agora a Páscoa de Jesus e sua Ressurreição no domingo; por isso, a Igreja, desde os Apóstolos guarda o domingo como o dia do Senhor. (Dominus)

Jesus ressuscitou dentre os mortos “no primeiro dia da semana” (Mc 16,2). Este “primeiro dia”, o dia da Ressurreição de Cristo, lembra a primeira criação. Enquanto “oitavo dia”, que segue ao sábado, significa a nova criação inaugurada com a Ressurreição de Cristo. Para os cristãos, ele se tomou o primeiro de todos os dias, a primeira de todas as festas, o dia do Senhor (”dies dominica”) o “domingo”. São Justino já no século II dizia: “Reunimo-nos todos no dia do sol, porque é o primeiro dia (após o sábado dos judeus, mas também o primeiro dia) em que Deus extraindo a matéria das trevas, criou o mundo e, nesse mesmo dia Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dentre os mortos”.

O Catecismo da Igreja afirma que “Aos domingos e nos outros dias de festa de preceito, os fiéis têm a obrigação de participar da missa”. “Satisfaz ao preceito de participar da missa quem assiste à missa celebrada segundo o rito católico no próprio dia de festa ou à tarde do dia anterior. (CIC. §2180)

“Por isso os fiéis são obrigados a participar da Eucaristia nos dias de preceito, a não ser por motivos muito sérios (por exemplo, uma doença, cuidado com bebês) ou se forem dispensados pelo próprio pastor. Aqueles que deliberadamente faltam a esta obrigação cometem pecado grave.” (§2181)

As necessidades familiares ou uma grande utilidade social são motivos legítimos para dispensa do preceito do repouso dominical. Neste caso a pessoa deve participar da Missa outro dia.

O domingo deve ser dedicado às boas obras; à evangelização, catequese, à caridade, aos serviços aos doentes e idosos. É o dia de se visitar os parentes, descansar; fazer uma reflexão, silêncio, meditação. Quem precisa trabalhar no domingo, então deve buscar o repouso e a oração em outro dia. E os patrões têm a obrigação de facilitar aos empregados ao menos participar da santa missa no domingo.