terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Padre Léo - Palestras



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A Coragem e a Força do Coração
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Dom Bruno Forte: teologia, escola de humildade contra o niilismo


Arcebispo de Chieti-Vasto, Itália, analisa o pensamento teológico de Bento XVI

Por Mirko Testa

ROMA, quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).– Em uma época que assistiu ao ocaso de uma razão totalitária, a teologia, entendida como escola de humildade e de escuta da palavra de Deus, pode constituir um antídoto contra o sentimento de abandono , filho do niilismo.

Nesta entrevista concedida à ZENIT, Dom Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto (Itália) e presidente da Comissão para a Doutrina da Fé, Anúncio e Catequese da Conferência Episcopal Italiana, analisa as últimas intervenções de Bento XVI em matéria de teologia.

–No ano passado, na homilia da missa celebrada na presença dos membros da Comissão Teológica Internacional, o Papa explicou que o verdadeiro teólogo não é aquele que busca medir o mistério de Deus por meio da própria inteligência, mas sim aquele que é consciente das próprias limitações. Naquela ocasião, o Papa identificou na humildade o caminho para a verdade, fazendo assim uma advertência aos teólogos presunçosos que se comportam como os antigos escribas. O senhor pensa que essa advertência se referia a uma tendência própria dos nossos dias?

–Dom Bruno Forte: Acredito que este seja o ponto fundamental que distingue a teologia cristã de qualquer forma de gnose. A diferença fundamental é que na teologia, tudo nasce do ouvir, e portanto do auditus Verbi, enquanto que, para a gnose, tudo é uma produção intelectual autônoma do sujeito. Este é o verdadeiro motivo pelo qual a gnose constitui a única autêntica heresia cristã: a presunção de auto-redenção do homem, que não necessita da intervenção de um Outro proveniente do Alto, isto é, de Deus. Uma teologia fundamentada na Revelação não pode deixar de ser, acima de tudo, um ouvir, e portanto, é humilitas: uma atitude de profunda abertura e docilidade perante a ação de Deus, que se manifesta na história de maneira surpreendente, enquanto a confirma em sua dignidade, abrindo-a ao novum adveniens de sua promessa.

Um tema que Ratzinger, como teólogo, destacou repetidas vezes, e que deriva de sua leitura de Agostinho - o gênio do intellectus fidei vivido no ouvir, no uso da inteligência a serviço do ouvir a Palavra de Deus – e que também se encontra em São Boaventura. Diria que é a influência agostiniana-fransciscana que predomina na formação teológica de Joseph Ratzinger, que se manifesta em seu ministério papal na forte ênfase conferida ao humilitas e ao auditus. Acrescentaria, ainda, que esta temática é especialmente relevante nos dias de hoje, em uma sociedade que conheceu a embriaguez da razão, e portanto a tentação gnóstica, nas várias faces da ideologia moderna, e que hoje, nesta inquietude própria da pós-modernidade, se não for capaz de se abrir ao ouvir e ao humilitas, corre o risco de sucumbir ao niilismo, isto é, à ausência de sentido. Em outras palavras: quem pode nos salvar? A esta pergunta não podemos responder a não ser: o Outro que vem a nós, o Deus vivo, e isto exige humildade e espírito de acolhida. A gnose de nossa sociedade pós-moderna, na qual a razão totalizante conheceu uma crise profunda que evidenciou a necessidade de sua superação crítica, está fundamentada na mesma convicção fundamental, o absolutismo do sujeito e de sua capacidade de conhecer ou produzir a verdade.

–Em setembro de 2007, ao visitar a abadia cisterciense de Heiligenkreuz, o Papa denunciou “certas teologias que já não respiram no espaço da fé”, e buscou resgatar aquela “teologia de joelhos” – recorrendo à bela expressão cunhada por Hans Urs von Balthasar. Da mesma forma, ao evocar a figura de São Bernardo de Claraval durante uma audiência geral, Bento XVI disse que sem fé e oração, a razão por si mesma é incapaz de encontrar a Deus, e a teologia torna-se um "exercício intelectual inútil”. É este o panorama da teologia atual?

–Dom Bruno Forte: O primeiro fator decisivo é que, justamente por se tratar de ouvir a Palavra de Deus, a teologia não só necessita de um Humilitas radical, mas também de uma forma de acolhida amorosa, uma atitude de oração. Von Balthasar insistiu muito sobre este assunto, argumentando que a santidade não constitui uma condição supérflua ao exercício da teologia, mas sim uma condição fundamental. Não é por acaso que os grandes teólogos, especialmente os Padres da Igreja, também foram santos. Daí segue que a necessidade de se ajoelhar diante do mistério e ouvir, de viver o auditus não apenas com humildade, mas com amável e perseverante aceitação da fé, está na própria essência da teologia cristã. E também nesse sentido, o pensamento de Joseph Ratzinger contém não apenas as influências de Agostinho e Boaventura, mas também outra intuição muito importante, já retomada no Concílio Vaticano II: a existência de uma ligação íntima entre a vida cristã, o pensamento cristão e a liturgia.

A liturgia, enquanto Culmen et fons, como diz o Concílio Vaticano II, é fonte e ápice de toda a existência cristã, seja na vida prática ou em sua dimensão reflexa. É por isso que uma teologia sem alma litúrgica, isto é, sem a capacidade de louvar e invocar a Deus, torna-se um fútil exercício intelectual. Torna-se uma outra forma daquela gnose que ameaça poluir a capacidade humana de se abrir para Deus.

Na grande visão teologia cristã-católica, o homem foi feito capax Dei: mas essa capacidade está condicionada, por um lado, ao humilitas, e de outro, à capacidade de invocar o dom de Deus e de deixar-se mergulhar em uma atitude doxológica e litúrgica, isto é, de glorificação de Deus. Quando tudo isso é tornado palavra, é que nasce propriamente a teologia.

Há aqui outra consideração a ser feita sobre a relação entre teologia e espiritualidade. Experimentamos uma crise nesta relação na época da teologia moderna, isto é, da teologia influenciada pela contraposição iluminista entre Vernunftswahrheit e Geschichtswahrheit, verdade de razão e verdade de fato.

Na concepção iluminista, somente a verdade de razão é verdadeira, porque seria dotada de um caráter absoluto e universal, e que as verdades de fato não contêm.

O cristianismo, ao contrário, baseia-se numa verdade de fato: a revelação histórica de Deus. À época, parecia que para uma teologia de matiz iluminista-liberal, havia dificuldade em conciliar o exercício teológico puro com alguma forma de espiritualidade, que talvez devesse ser deixada para a devoção.

Este descompasso entre a teologia e a espiritualidade produziu grandes danos na era da teologia moderna, manifestados principalmente na teologia liberal e em algumas formas de modernismo católico, mas continuou a produzir danos quando, por exemplo nos anos 60 e 70, algumas formas de teologia cristã deixaram-se condicionar por ideologias revolucionárias modernas. Hoje testemunhamos, ao contrário, um movimento em direção ao estatuto fundamental da teologia, para o qual o exercício teológico consiste em trazer ao pensamento a experiência do Mistério revelado, ouvido e celebrado na liturgia, vivido e testemunhado na fé e na caridade.

Assim, a teologia não é apenas docta fides, isto é, uma fides quaerens intellectum, mas também docta caritas, isto é, o levar à palavra a experiência do amor, o dom do amor de Deus expresso na liturgia e na Graça dos Sacramentos, e que deve posteriormente ser testemunhado com gestos e com a silenciosa eloquência da caridade. Teologia e espiritualidade, desse modo, reencontram a ligação fundamental que delas faz uma teologia e uma espiritualidade cristãs. Uma teologia sem espiritualidade corre o risco de se tornar uma teologia vazia, assim como uma espiritualidade desprovida de teologia corre o risco de se tornar cega, para parafrasear a conhecida afirmação de Kant sobre intuições e conceitos.

–A adesão, por parte da Santa Sé, à “Declaração de Bolonha”, conduziu a um reordenamento global da formação teológica na Itália, com uma consequente recalibração dos padrões curriculares existentes. Para o senhor, as exigências de adaptação aos critérios de “cientificidade” não favoreceriam um abandono das concepções que pressupõem a fé na pesquisa teológica?

–Dom Bruno Forte: Esta é uma questão antiga e recorrente na história da teologia. Gostaria de apresentar duas respostas: uma de caráter histórico e outra de caráter atual, mas com um certo “sabor metodológico”. A primeira é a resposta dada por São Tomás à mesma pergunta, quando abre sua Summa Teologica com uma audácia impensável nos tempos dos Padres da Igreja. Tomás se pergunta: utrum praeter philosophicas disciplinas aliam doctrinam haberi? Isto é, não questiona a legitimidade das disciplinas filosóficas, mas sim a legitimidade da teologia, num tom absolutamente moderno que parece revindicar a autonomia da razão. A resposta que dá a questão é que a racionalidade exigida pelas disciplinas científicas é principalmente voltada para identificar causas, scire per causas, para conhecer através das conexões entre premissas e deduções. Ora, este saber a partir das causas pode ser exercido de duas formas: partindo dos primeiros princípios inerentes à ciência, das assim chamadas ciências subalternantes (ele menciona como exemplo a matemática, a qual, a partir de seus princípios intrínsecos, que não são demonstráveis – e nesse ponto Tomás já antecipa as idéias de Godel – deduz todas as consequências); e, por outro lado, há as ciências subalternas, que recorrem a princípios extraídos de outras ciências.

A esse propósito, Tomás toma como exemplo o caso intrigante da música, cujas harmonias e proporções dependem da matemática. Analogamente, diz Tomás, a teologia também depende da scientia Dei et beatorum, isto é, da Revelação. Em outras palavras, a fonte do conhecimento teológico é lumen fidei por natureza, embora, porém, em suas argumentações, tenha o mesmo estatuto epistemológico das demais ciências, e portanto, goza da plena dignidade de universitas scientiarum.

Como devemos nos posicionar hoje frente aos avanços da teologia e da epistemologia modernas? A essa pergunta, respondo fazendo uma referência àquela que talvez seja a maior das conquistas filosóficas e teológicas do século XX: a redescoberta da hermenêutica, a ciência das interpretações. Quando, há muitos anos atrás, o decano da Faculdade Teológica de Nápoles convidou para uma quaestio quodlibetalis Hans-Georg Gadamer, o pai da hermenêutica contemporânea, autor de “Verdade e Método”, um jovem estudante do primeiro ano lhe fez a seguinte pergunta: “o que é a hermenêutica”? E Gadamer, após alguns momentos de reflexão, respondeu: “Hermenêutica significa que quando eu e você falamos um com o outro, nos esforçamos para alcançar o mundo vital que se esconde por de trás das palavras, e do qual elas provêm”.

Assim, a epistemologia iluminada pela hermenêutica busca não só compreender o imediatamente perceptível, o visível, o fenômeno, o racional, mas também compreender, ou ao menos tentar alcançar, estes mundos vitais dos quais estas expressões provêm. Neste contexto, descobre-se que ciência não é apenas aquela dos fenômenos, mas que existe também um conjunto de ciências, as do espírito, que se esforçam em alacançar um “não dito”, um “não dizível”, algo que não pode ser totalmente tematizável, mas que, no entanto, é o mundo vital no qual se desenvolvem os processos humanos, os processos históricos e assim por diante.

E que há, para além, outro nível que remete àquela experiência do mistério da vida e do mundo que todos nós experimentamos, e que não pode ser reduzida a uma mera fórmula linguística ou racional. Há um transbordar do Mistério que envolve o mundo e a vida de cada um de nós, e que cada um de nós elabora continuamente na surpresa, de forma estupefata, e que apenas em parte conseguimos expressar com palavras.

Ora, uma ciência que leve a sério o espanto diante deste Mistério, que acate a possibilidade de que este se expresse sem se trair - isto é, a possibilidade da Revelação - e que faça disso seu objeto de estudo, é uma ciência preciosíssima.

Em tal dimensão hermenêutica, interpretativa da realidade, que não se atém no imediato, mas que busca sempre colher o que está para além, nas conexões profundas, a teologia se apresenta como uma ciência da qual o homem necessita para viver e para morrer, da mesma forma que necessita de Deus e do sentido da vida.

–Em 1986, falando em Brescia, em uma reunião organizada pela redação do jornal italiano "Communio", Ratzinger disse que na consciência defendida pela teologia católica, a autoridade da Igreja é vista frequentemente como uma instância alheia à ciência, no sentido de algo que limita ou até mortifica a pesquisa. Para o senhor, principalmente após o advento da Teologia da Libertação, permanece atual essa visão?

–Dom Bruno Forte: A tarefa do Magistério da Igreja não é uma tarefa regressiva, mas sim uma tarefa quase perspectiva. Em um famoso ensaio de 1953, que fez história no debate teológico, Karl Rahner, interrogando-se sobre o Concílio de Calcedônia e sua definição dogmática - a qual é obrigatória para todos os cristãos, seja qual for a sua filiação confessional - de Cristo como uma pessoa divina em duas naturezas, uma humana e outra divina, sua resposta foi muito clara: o dogma não representa um fim, não constitui uma prisão para o pensamento, mas estabelece marcos a partir dos quais não se volta mais atrás; pois, nesse caso, voltar atrás significaria, ou cair em alguma forma de arianismo, numa visão meramente humana e mundana de Cristo – na qual Cristo já não seria mais o mediador da Aliança nem Salvador – ou, em alguma forma de modalismo, ao pensar num Deus que se fez presente entre os homens, mas não assumiu verdadeiramente nossa carne mortal, não se comprometendo de fato com a humanidade.

Dizia Karl Rahner, precisamente, que a definição dogmática de Calcedônia constitui um baluarte contra o retrocesso, não contra o progresso. Ilario di Poitiers, por sua vez, foi capaz de intuir a belíssima dimensão deste discernimento magisterial da Igreja. Dizia ele: “o dogma é estabelecido por uma exigência de caridade, para auxiliar a não perder a direção, a não deixar a estrada indicada por Deus”; também seu ponto de vista é claramente perspectivo, e não defensivo ou repressivo.

O caso da Teologia da Libertação, que você mencionou, é um exemplo apropriado. As principais intervenções a este respeito, realizadas pela Congregação para a Doutrina da Fé, foram duas: uma altamente crítica, que evidenciou as limitações frequentemente associadas à dependência ideológica dessa teologia; e outra, que ao contrário, ilustrou as conquistas e contribuições positivas de uma teologia inspirada em suas bases pela caridade e pelo serviço. Acredito que, nesse episódio, o magistério agiu de acordo com o que disse Poitiers e, mais recentemente, Karl Rahner – não uma atitude repressiva que faça esmoecer a vida, mas sim de promoção da vida autêntica que apenas a verdade de Deus é capaz de infundir em nós.

Para concluir, lembrarei o trecho de João 8, 32, que João Paulo II tanto gostava de repetir, e que nos disse quando trabalhávamos na Comissão Teológica Internacional, no documento “Memória e reconciliação”: “A verdade vos fará livres”.

Assim, quanto mais se serve à causa da verdade, quanto mais o Magistério se coloca a serviço do testemunho da verdade, tanto mais se favorece a liberdade, a liberdade autêntica que confere sentido, plenitude, vida e salvação ao coração do homem.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Entrevista de Zilda Arns a ZENIT em 2001

Sobre a Pastoral da Criança, candidata a Nobel da Paz

ROMA, quarta-feira, 13 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Entre os candidatos ao Prêmio Nobel da Paz do ano 2001 estava a Pastoral da Criança, fundada e coordenada pela médica Zilda Arns. Na ocasião, a sanitarista conversou em Roma com o editor-chefe da ZENIT, o jornalista Jesús Colina. Em homenagem a Zilda Arns, morta no terremoto do Haiti, publicamos a entrevista, inédita em português.

* * *

–Qual é a contribuição que a Pastoral da Criança oferece à luta contra a desnutrição e mortalidade infantil no Brasil?

–Zilda Arns Neumann: Respondo-lhe com alguns dados. Os 150.000 voluntários [hoje são 260.000, N. do R.] da Pastoral da Criança trabalham cada um deles com entre 10 e 20 famílias. Ensinam coisas muito simples –costumam ser pessoas com um grau de instrução muito baixo–, mas indispensáveis para a saúde das crianças: nutrição de mães gestantes, lactância materna, reidratação oral, vacinas. Ocupamo-nos da educação de 1,6 milhão [hoje 1,8 milhão] de crianças desde que nascem até os seis anos. Cada ano, além disso, ensinamos 32.000 adultos a ler e a escrever, quase sempre mães. Tudo isso influi na alfabetização e na redução da mortalidade infantil em todo o país. A desagregação familiar no Brasil é uma chaga. Os homens, frequentemente, abandonam a mulher e os filhos.

–De modo que sua atividade em grande parte se dirige às mulheres?

–Zilda Arns Neumann: Sim, as mulheres têm muito interesse em ser agentes de transformação. Querem aprender para poder criar melhor seus filhos. De nossos 150.000 voluntários, 130.000 são mulheres que pertencem ao mesmo ambiente. Aprendem com rapidez e na Pastoral encontram uma família e têm como ponto de referência Deus.

–Portanto, nas comunidade pobres existe uma forte orientação religiosa?

–Zilda Arns Neumann: Muitas de nossas voluntárias não praticam nenhuma religião. Mas os princípios que lhes ensinamos são profundamente cristãos, como a solidariedade e a justiça social.

–Qual foi seu maior êxito nesses 17 anos?

–Zilda Arns Neumann: A redução de 60% da mortalidade infantil e da desnutrição em 50%, e a diminuição da violência dentro das famílias. Nunca houve este tipo de educação popular na história do Brasil. A porcentagem de crianças que vivem na miséria é altíssima.

–Pensa que o governo do Brasil deve se comprometer mais em melhorar a vida dessas crianças?

–Zilda Arns Neumann: Os indicadores demonstram que a assistência à escola está aumentando e também o nível de saúde. Isso prova que o compromisso do governo é efetivo e está aumentando. Mas a Pastoral pensa que, para obter melhores resultados, faz falta uma grande atenção ao tecido social. Por isso, nós, entre outras coisas, tentamos criar redes de solidariedade nas comunidades dos pobres. O objetivo é aumentar a autoestima dos pobres e seu potencial humano. Encontramos às vezes mulheres com 4 ou 5 filhos, analfabetas, que se sentem uma nulidade. Quando a Pastoral as tira da privação, as alfabetiza e lhes dá esperança, elas conseguem começar uma vida nova para si mesmas e para seus filhos.

–Quais são os objetivos nos próximos anos?

–Zilda Arns Neumann: Estamos concentrando muitos recursos para instruir a população sobre estes temas: nutrição, saúde, cidadania e educação para a paz. Temos organizado debates sobre estes problemas em todas as comunidades, de modo que cada pessoa que seguimos encontre um caminho de paz para a própria família. A Pastoral é consciente de que os problemas das pessoas nascem em um contexto hostil. Onde há analfabetismo, pobreza, falta de oportunidades, é mais provável que haja delinquência e tráfico de drogas. Por isso, a Pastoral centra-se nas crianças menores de seis anos e nas mães gestantes, para que se libertem deste contexto hostil e tanto a criança nascida como a por nascer possam desenvolver o máximo de suas capacidades. Temos 100 espaços comunitários, nos quais as crianças permanecem algumas horas, acompanhadas pelos pais, para que seus familiares aprendam o valor do desenvolvimento infantil. Deste modo, também as mães se socializam e melhoram sua saúde mental. Nos próximos anos, serão criados outros 200 destes espaços, todos em áreas de extrema pobreza.

–Em todo este trabalho social, como se insere a educação para a paz?

–Zilda Arns Neumann: A campanha “A paz começa em casa” foi lançada em 1999 e se dirige a prevenir a violência contra as crianças no ambiente doméstico. Ensinamos as famílias, por meio de encontros mensais, a assumir posturas que ajudam a melhorar as relações familiares e a construir uma cultura da paz. Em toda esta pedagogia, está presente a mensagem cristã da corresponsabilidade. Não esperar apenas a ajuda dos demais, mas ver o que podemos fazer nós mesmos.

Haiti: situação muito dolorosa, diz secretário da CNBB

Dom Dimas Lara esteve no país em comitiva do governo brasileiro
BRASÍLIA, sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- O secretário-geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Dom Dimas Lara, afirmou que o Haiti passa por uma “situação muito dolorosa” após o terremoto de terça-feira.

Dom Dimas falou à assessoria de imprensa da CNBB ao chegar a Brasília na madrugada de hoje, vindo da capital haitiana, em voo da Força Aérea Brasileira.

O bispo acompanhou a comitiva do ministro da defesa, Nelson Jobim. Dom Dimas expressou sua preocupação em dar apoio espiritual e humanitário às vítimas da tragédia, em especial aos soldados brasileiros em missão de paz no Haiti.

“O arcebispo de Porto Príncipe, dois bispos e centenas de religiosos morreram soterrados, e outras centenas estão desaparecidas no meios dos escombros. Em um sobrevoo pela capital, percebemos que a cidade está em ruínas”, disse Dom Dimas.

Segundo o secretário-geral da CNBB, vários militares brasileiros “só estão com a roupa do corpo, perderam tudo, pois até as condições das bases do Brasil foram seriamente danificadas, tamanha a força do terremoto”.

“Nesse momento eu gostaria de fazer uma homenagem aos nossos soldados. São uns verdadeiros heróis. Trabalhando incessantemente enquanto podem, inclusive chorando as perdas dos companheiros de farda”, disse.

SOS

A CNBB lançou a Campanha SOS Haiti. Em nota divulgada hoje, a presidência do organismo episcopal chama “todas as comunidades eclesiais, paróquias e dioceses a promoverem, no próximo domingo, dia 17, ou no dia 24 de janeiro, ou em outra data conveniente, orações e coletas em dinheiro para as vítimas do terremoto no Haiti”.

“Assim, nos unimos à campanha mundial promovida pela Caritas Internationalis em resposta ao apelo do papa Bento XVI”, afirma a nota.

As doações podem também ser depositadas nas contas: Banco do Brasil - Agência: 3475-4 - Conta Corrente: 23.969-0; Caixa Econômica Federal - OP: 003 - Agência: 1041 - Conta Corrente: 1132-1; Banco Bradesco - Agência: 0606 - Conta Corrente: 70.000-2.

Igreja Católica ajuda o Haiti

Várias organizações católicas se mobilizam
MADRI, sexta-feira, 15 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- A Igreja está se mobilizando para ajudar a população atingida pelo terremoto no Haiti, em resposta ao chamado de Bento XVI a que os católicos sejam generosos com esse país caribenho.

Após seu apelo internacional, o Papa disse que a Igreja Católica será ativada “imediatamente” através de suas instituições de caridade para ajudar a população afetada.

A nota informativa do Vaticano afirma que, “como no passado, em ocasião de outras tragédias desse tipo, os católicos já estão presentes com sua assistência concreta e diversas agências católicas estão trabalhando e enviando equipes”.

O Conselho Pontifício Cor Unum está em contato direto com Catholic Relief Services, uma agência humanitária dos bispos dos Estados Unidos, que se encarregará de coordenar a ajuda: “A equipe que já se encontra no Haiti e conta com mais de 300 membros ativos está lá faz algum tempo, a experiência passada, a capacitação e os recursos de CRS permitiram uma rápida e eficaz coordenação dos esforços da Igreja que devem ser generosos e concretos”.

O Papa pediu generosidade com o Haiti e os bispos italianos responderam com o anúncio de dois milhões de euros para as primeiras emergências, o dobro do que foi prometido pelo governo italiano.

A Conferência Episcopal Espanhola encorajou os católicos a serem solidários, enquanto que a Cáritas e as ONGs católicas estão somando esforços para recuperação econômica através de várias contas bancárias no âmbito nacional e diocesano.

Nos Estados Unidos, onde vivem milhares de católicos de origem haitiana, no dia 24 de janeiro será realizada uma coleta nacional na América Latina que boa parte será em prol do Haiti, mas também amanhã e domingo haverá coletas adicionais, a pedido do cardeal Francis George, presidente dos bispos norte-americanos, os quais já prometeram cinco milhões de dólares.

A Igreja na República Dominicana oferece orações e uma coleta em todas as paróquias do país. O cardeal Nicolás López, arcebispo de Santo Domingo, pede ajuda “às nações irmãs da América e de outros continentes”.

O presidente da Cáritas Internacional, cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga, expressou seu desejo de que “sejam produzidos os compromissos necessários para aliviar a miséria dos haitianos e a pobreza estrutural desta assediada nação”.

A zona afetada cobre quatro dioceses (Porto Príncipe, Jacmel, Gonaives e Jeremie), com seis milhões de habitantes. Antes do terremoto havia 150 paróquias, com quatro milhões de católicos, 450 sacerdotes e mais 600 religiosas.

O diretor do escritório de Ajuda à Igreja que Sofre na Inglaterra, Neville Kyrke-Smoth, ressaltou que “nos últimos 50 anos, o povo haitiano experimentou as consequências de uma política agitada, de violência e de catástrofes naturais. Agora o terremoto parece o golpe final para um dos países mais pobres do mundo”.

A organização Mãos Unidas abriu uma conta de emegência cuja arrecadação será destinada a aquisição de produtos de primeira necessidade e, posteriormente, a trabalhos de reconstrução do país.

“A cidade está desolada, muita gente está vagando pela rua sem rumo e existem muitos mortos. Não sabemos onde estão nossos colegas”, explicou o jesuíta espanhol Ramiro Pampols, membro da ONG Entreculturas.

Essa organização está coordenando sua atuação de emergência com o Serviço Jesuíta para Refugiados. Ambas organizações já se mobilizaram para dar uma primeira resposta. Mesmo assim, os centros da Companhia de Jesus na República Dominicana organizaram uma rede de ajuda para socorrer as vítimas do país vizinho.

“Mais uma vez o Haiti sofre um drama”, contava desolado o superior regional da Companhia de Jesus no Haiti, Kawas François, que descreveu como estão sendo os primeiros dias depois desse choque fatal para um país que vivia na miséria: “Todo mundo está em estado de choque. As comunicações estão cortadas e estamos passando sérias dificuldades para ajudar nossos vizinhos”.

O Serviço Jesuíta para Refugiados na República Dominicana formou comissões, uma de emergência humanitária, para recolher todas as doações de alimentos e medicamentos, e outra em conjunto com instituições do Estado.

Além disso, os jesuítas estão incentivando a que cada país da região da América Latina onde se encontram as obras da Companhia de Jesus tome uma iniciativa de solidariedade a respeito do povo haitiano.

(Nieves San Martín)

Portugal: Igreja “radicalmente contra” adoção por homossexuais

Porta-voz da CEP falou após assembleia plenária do episcopado
FÁTIMA, terça-feira, 12 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Em reunião do Conselho Permanente da CEP (Conferência Episcopal Portuguesa), realizada hoje no Santuário de Fátima, os bispos portugueses abordaram o tema da recente legalização do casamento homossexual em Portugal.

Após o encontro, os bispos portugueses reafirmaram, em conferência de imprensa, que uma “questão tão profunda e delicada como é o casamento” merecia “mais ponderação, reflexão, tempo para ver quais as consequências”; informa o departamento de imprensa do Santuário de Fátima.

Os bispos enfatizaram que não poderia haver uma “precipitação”, que poderá “beliscar a qualidade da democracia”, uma vez que “pôs de lado o pedido de cerca de uma centena de milhar de cidadãos” que solicitava um referendo sobre esta questão.

“Mas se não se considera a possibilidade de um referendo numa questão tão profunda e delicada como é a estrutura familiar baseada no casamento entre um homem e uma mulher, pergunta-se se haverá alguma vez razão para promover um referendo", declarou o porta-voz da CEP, padre Manuel Morujão.

O porta-voz disse ainda que a Igreja está “radicalmente contra” a possibilidade de adoção de crianças por casais homossexuais.

"Todas as pessoas merecem ser tratadas com todo o respeito, mas também a família e o casamento devem ser tratados com todo o respeito", disse.